É isto que é possível ver em Viventes de Maceió,
a nova obra de Carlito Lima, que
este mês lança dois livros. Além
do já citado, o Duque de Jaraguá
brinda os alagoanos com a
biografia do ex-governador
Ronaldo Lessa, com uma narrativa
de quem estava dentro do
nascimento do homem político,
desde a turma de Engenharia
Civil, em que ele e Lessa
estudaram juntos. Com as duas
recentes obras, Carlito Lima
chega ao sétimo livro sem perder
o fôlego de um escritor
iniciante e a paixão pelas
letras, mas demonstrando
maturidade com a escrita. Um
intelectual sem as frescuras do
intelectualismo. A simples
linguagem viva e ambulante do
povo, que atravessa o tempo.
Carlito Lima – em suas obras –
se firma como o Clássico do
nosso presente.
Ao descrever o porquê de
recompor histórias sobre os
personagens de Maceió, o
escritor diz que decidiu
“radiografar a cidade por meio
de suas almas”, o que considera
mais importante e que segue os
passos de Mestra Graça, nesta
árdua tarefa. “Comecei a
escrever o livro a partir da
idéia tida por Graciliano Ramos
ao fazer Viventes de Alagoas.
Decidir então pelo título de Viventes de Maceió,
como uma referência. Busquei
pessoas que construíram esta
cidade, em todos os sentidos,
mas que não são lembradas. Por
exemplo, fiquei assustado ao dar
uma palestra no bairro do
Benedito Bentes e perceber que
as pessoas não conheciam quem
foi o homem que dá nome ao local
onde eles moram”.
A surpresa de Carlito Lima deu
origem à “necessidade de juntar
coisas de Maceió e falar de seus
personagens históricos. Ir além
dos seus prédios, sentir a alma
de seu povo”. Em Viventes de
Maceió, Lima resgata o
sentimento de nascer na Terra
dos Marechais e conta histórias,
com paisagens e símbolos que o
tempo deixou para trás. Uma
destas é o conto sobre a amante
do saudoso ex-governador Costa
Rego. “Ele tinha uma amante
francesa. O povo ficou revoltado
porque ele a colocou em uma
residência aqui em Maceió, gerou
muitos comentários. Em 1939, o
capitão Mário Lima comprou esta
casa e foi morar lá com a
família. Um ano depois, nasce um
menino bonitinho e rosado
naquele lar. Nasce o Carlito
Lima. Eu. Nasci na casa da
amante do governador (risos)”,
revela.
Ainda
que Viventes de Maceió retome um tom saudosista,
Carlito Lima não se assume
nostálgico. “Não tem um quê de
saudosista ou de personagem
nostálgico. Não mesmo. Eu falo
do passado, resgato estas
histórias, mas gosto mesmo é de
viver o presente. Reconheço as
belezas da vida de hoje, como
por exemplo, as coisas novas e
lindas da nossa Maceió de agora.
Entre elas, destaco a praia da
Pajuçara. Em nenhum lugar do
mundo existe algo tão lindo. As
coisas modernas também são muito
boas”.
No entanto, ao falar da Maceió
de hoje, o escritor lamenta a
destruição de ícones de nossa
cultura e diz que as pessoas
responsáveis deveriam estar na
cadeia. “Falo sobre isto no
livro. Há uma série de tragédias
alagoanas com um patrimônio que
pertencia aos maceioenses, como
os Sete Coqueiros, que deixaram
cair, como a Casa Rosa, que não
mais existe e que futuras
gerações jamais poderão ver.
Como deixaram estes lugares
sumir. Faziam parte da alma do
povo de Maceió. Cito o Gogó da
Ema, a Cadeia Pública, enfim. Os
responsáveis por tudo isto
deveriam ir para a cadeia. Mas
há coisas lindas também em nossa
atualidade”, sentencia.
Para Carlito Lima a união entre
o povo e as belezas naturais
fazem de Maceió , “a cidade mais
linda do mundo”. É agarrado a
este sentimento, que Viventes de
Maceió tenta definir o que é ser
maceioense, já que para Carlito
Lima é um sentimento que vai
além das palavras. “Rapaz,
recebi certa vez um e-mail que
dizia que ser maceioense é morar
a duas quadras da praia, seja em
qualquer lugar da cidade. Que
definia o maceioense como aquele
que não se preocupa com os
congestionamentos da Tietê, por
exemplo. Achei interessante e
coloquei que vai muito além. É
olhar o pôr-do-sol e saber que
se estar no paraíso. É poder
escutar Júnior Almeida, Macléim
e outros. É lindo”, coloca.
Ao descrever Maceió, Carlito
Lima lembra que tomou banho no
Riacho Salgadinho ao lado de
Cacá Diegues, quando garoto.
“Pescávamos juntos. Fomos uma
geração privilegiada, pela
boemia, o intelectualismo e a
minha geração era muito ligada
ao sexo. Fizemos quadrilhas com
prostitutas. Agora, reconheço
que a juventude de hoje em dia
também tem a sua vantagem, entre
elas, a evolução da genética e
as questões da saúde. Na minha
época chegar aos 50 era estar
velho, hoje eu me sinto jovem
ainda e não há mais esta visão”,
coloca.
Mesmo falando de uma “geração
privilegiada”, o escritor crer
que ainda há espaço para a
boemia e a boa intelectualidade
em Maceió. “Há espaço sim. Tem o
Bar da Zefinha, no Jaraguá,
muita gente se encontra lá e
vejo que há este ambiente ainda
aberto para a ideologia, mesmo
sendo diferente da nossa época.
Até a prostituição hoje é
diferente. Na época era reduto
de pensadores. Hoje em dia é com
ponto, endereço no jornal, etc.
Nos antigos redutos a gente via
senadores, deputados,
influentes. Era chique.
Terminávamos a boemia ao lado
das garotas de programa. Havia
em nossos encontros uma questão
política. Vivemos uma revolução
de costumes”.
Ao ser indagado sobre tal
revolução, Carlito Lima diz que
“aquela geração passou por uma
reformulação de valores”. “Na
minha época ninguém transava com
a namorada, por exemplo, e as
discussões políticas eram fortes
e ligadas a ideologias. Na
faculdade, ninguém falava comigo
porque eu era do Exército, sofri
discriminação e só consegui
entrar na turma e ter amizade,
inclusive com o Ronaldo Lessa,
depois’.
“Tem até uma história interesse,
sobre uma boate em Riacho Doce,
a Zinga Bar, que era maravilhosa
e ficava a beira-mar. Foi uma
revolução dos costumes femininos
em Maceió. Era um local aonde as
moças de família iam, porque não
era prostíbulo. Começou a mudar
muita coisa. Tenho saudades
deste local. Não sei porque
acabou. Era muito bom”, destaca
o contador de histórias.
O Carlito biógrafo
No
segundo livro lançado, A Caminhada de um Guerreiro,
Carlito Lima retrata a
trajetória de Ronaldo Lessa.
“Meu objetivo inicial era fazer
um livro sobre os últimos
governadores do Estado de
Alagoas, mas quando comecei
minhas pesquisas percebi um
material extenso e resolvi
lançar um por vez. O projeto
inicial se chamaria Briga de
Foice. Comecei pelo Lessa porque
convivi com ele na faculdade e
acompanhei de perto o processo.
Eu aponto qualidades e alguns
erros, mas vejo da minha ótica,
quem vê diferente que escreva
outro livro”, destaca.
“Os historiadores dizem que um
momento histórico ou um político
só pode ser analisado 40 anos
depois, quando somem os
resquícios de emoção e fica só a
razão. Pois bem, eu me antecipo
ao que será dito daqui alguns
anos. O Ronaldo Lessa marcou uma
era em Alagoas, com novas obras.
O Lessa desenvolveu um
sentimento de orgulho por ser
alagoano. Coisa que o povo havia
esquecido”, diz.
Conforme Carlito Lima, o livro
descreve os passos de Lessa
desde a liderança estudantil até
o período em que deixou o
Governo de Alagoas para se
candidatar ao Senado Federal.
“Avalio a época em que Lessa
esteve no poder como um período
de avanços. Destaco o que foi
feito pelo turismo, que isso já
bastou para fazer valer o
governo dele. O Lessa foi mais
estadista que político. O
político pensa apenas nas
próximas eleições, o estadista
nas gerações vindouras. O Lessa
foi político também. Teve que
acender velas ao diabo, como por
exemplo, as negociações com a
Assembléia Legislativa. Mais sei
que ele fez isto constrangido,
pois caso contrário não
governaria”, avalia.
Segundo o biógrafo, o
ex-governador nasceu em uma
madrugada chuvosa e depois veio
a bonança. “O nascimento de
Lessa representa uma metáfora
política da forma como ele
assumiu o Estado de Alagoas e
como saiu. Claro que ainda há
muito que fazer”, sentencia.
Quanto ao final da Era Lessa, o
escritor analisa: “Eu enxergo
com tristeza a forma como as
esquerdas estão deixando pó
poder. As forças de esquerda
sempre foram muito desunidas.
Elas só se unem mesmo dentro da
cadeia (risos). Deixaram escapar
o Governo de Alagoas. Não quero
culpar ninguém, mas ao
desentendimento entre si. Para
mim é algo triste não ter
nascido dentro do próprio
governo alguém para substituir o
Lessa. No livro eu digo isto”,
finaliza Carlito Lima.
A HISTÓRIA DO BARÃO DE JARAGUÁ
No
final do século XIX os ricos
comerciantes
construíram casarões avarandados em frente
aos trapiches da praia do aterro em Jaraguá.
Fachadas ornadas com primeiro e segundo
andares, estilo arquitetônico europeu.
Serviam para estabelecimentos comerciais e
moradias.
Por ser local
mais adequado, um ancoradouro natural,
Jaraguá foi contemplado com uma ponte de
embarque de navios e barcaças, alem dos
trapiches existentes.
A Ponte de
Jaraguá efervesceu o movimento comercial da
região. Inclusive foi um dos motivos da
transferência da capital do Estado, da então
cidade de Santa Maria Madalena da Alagoa do
Sul, hoje Marechal Deodoro, para Maceió.
Cais, porto, ancoradouro,
ponte de embarque atraem biroscas, bares e
cabarés. A região comercial de Jaraguá foi
se transformando em ponto boêmio. Os
moradores dos casarões, famílias das mais
distintas e conservadoras, mudaram-se para
outros bairros, abandonando aquelas moradias
para o comercio.
Foi nesse momento que os
belos casarões viraram casas noturnas,
boates, puteiros. Esses lupanares abrigavam
raparigas refinadas. Muitas importadas da
Europa, França, Bahia e do sertão
nordestino.
As prostitutas ficaram mais
de 60 anos naqueles estabelecimentos,
trabalhando com o suor de seu corpo. Fazendo
a vida na mais velha das profissões. Ao
mesmo tempo conservaram esse patrimônio
arquitetônico e histórico da cidade de
Maceió, o bairro de Jaraguá.
Por
essa razão alguns boêmios da cidade
resolveram homenagear as prostitutas que ali
moraram, preservaram e legaram para outras
gerações os casarões de Jaraguá. Afixaram o
MEMORIAL À PUTA DESCONHECIDA em uma rua. Um
gesto merecedor e reparador.
Sou fruto de Jaraguá. Nasci e
me criei nesse bairro onde originou Maceió.
Aprendi a andar nas areias da praia e a
nadar no mar azul-esverdeado da Avenida da
Paz.
Em minha juventude fui
assíduo freqüentador daqueles lupanares,
mesmo que, só para tomar uma cerveja ou
ouvir música dos conjuntos afinados que
tocavam para os clientes movimentarem-se com
as meninas. Foi com elas que aprendi a
dançar bolero, chá-cha-chá, mambo ou o
difícil tango argentino.
Os nomes dos cabarés eram
expressivos: Alhambra, Tabaris, Night and
Day. Nas ruas circulares ficavam os puteiros
da ZBM, ou seja, Zona do Baixo Meretrício,
freqüentado pela população mais pobre. Duque
de Caxias e o Verde eram os “randevus” mais
conhecidos da ZBM.
Quando os bairros de Pajuçara,
Ponta Verde se tornaram mais habitados pela
burguesia, houve uma forte pressão das
madames para tirar a zona de Jaraguá.
Sentiam-se incomodadas. Ao se deslocarem até
ao centro e outros bairros, inevitavelmente
passavam pelo corredor de prostíbulos.
Em 1969 o então Secretário de
Segurança Pública Coronel Adauto mandou
transferir todos os cabarés de Jaraguá para
região do Canaã no Tabuleiro dos Martins.
A partir desse momento alguns
casarões foram derrubados pelas imobiliárias
e construtoras. Construíram prédios de
gostos duvidosos como o BRADESCO e a
COMISPLAN. Até que intelectuais e artistas
liderados por Ênio Lins, Pierre Chalita e
Solange Lages conseguiram tombar o bairro de
Jaraguá.
Sem esse movimento da
comunidade artística, nada mais restaria dos
casarões que as putas conservaram por mais
de 60 anos.
Em
1990, a AMAPAZ, Associação dos Amigos da
Avenida da Paz, iniciou um movimento para
despoluir o Riacho Salgadinho e a própria
praia da Avenida.
Durante uma visita do então
Presidente Fernando Collor foram colocadas
faixas e cartazes em seu trajeto. No roteiro
do presidente sempre havia faixas pedindo a
despoluição do Salgadinho. O presidente
prometeu atender.
Com um mês, a Ministra
Margarida Procópio apresentou o projeto de
despoluição do Salgadinho. Junto, incluído,
veio também o projeto de Revitalização do
bairro antigo de Jaraguá.
Mas foi Ronaldo Lessa, como
prefeito, que conseguiu com o BID
financiamento e tocou a obra. Hoje Jaraguá
restaurado é um ponto de encontro de turista
e boêmios de Maceió.
Por conta dos velhos tempos e
por ter participado, de certa forma, na
recuperação do velho e bonito bairro boêmio
de Jaraguá, a Liga de Blocos Carnavalescos
de Maceió me conferiu o título de DUQUE DE
JARAGUÁ. O qual uso orgulhoso nos meus
escritos, na minha identidade. O diploma de
Duque fica bem visível, com muita honra, na
parede de minha sala, como uma homenagem ao
bairro onde nasci e me criei. Vivi e vivo
Jaraguá.