Carlito Lima - Duque de Jaraguá
Monday, 22th, September, 2003. Home | Contato | Links

 

Ex-capitão do Exército, ex-prefeito de Barra de S. Miguel (Al), engenheiro, ambientalista, descobriu seu talento de escritor só aos 61 anos quando em 2001, por insistência de amigos, foi editado seu primeiro livro de memórias, testemunho sóbrio, meticuloso, forte, sincero, humano e bem humorado: “CONFISSÕES DE UM CAPITÃO”. Destemido depoimento de um oficial do Exército com enfoque especial sobre 1964. Carlito Lima servia na 2ª Cia de Guardas no Recife, teve convivência com presos políticos como Arraes, Julião, Paulo Freire, Pelópidas Silveira, Gregório Bezerra entre outros.
A revista paulista CULT, colocou CONFISSÕES DE UM CAPITÃO, entre os 14 melhores livros na bibliografia sobre o golpe militar de 1964.
O livro foi sucesso em todo o Brasil após entrevista de Carlito Lima no programa do Jô Soares.
Descoberto como excelente contador de história, escreve há cinco anos uma coluna semanal, HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA, em vários jornais com histórias bem humoradas da vida real.
Em 2005 começou a editar a revista eletrônica semanal ESPIA na Internet com opiniões, dicas, notícias e muito bom humor, enviada por E-Mail. Fazendo sucesso nas páginas virtuais.


CARLOS DIEGUES CITA CARLITO LIMA EM SEU LIVRO "O DIÁRIO DE DEUS É BRASILEIRO"

 

Em seu livro sobre o filme "Deus é Brasileiro", Cacá Diegues cita Carlito Lima como amigo e companheiro de infância, além de elogiar seu livro "Memórias de um Capitão". Leia abaixo um fragmento do livro de Cacá Diegues:

"Carlito Lima, meu amigo de infância na Avenida da Paz, em Maceió, veio nos visitar no Peba. Ele era capitão do Exército quando houve o golpe militar de 1964. Por acaso, Carlito tornou-se carcereiro de Miguel Arraes e outros políticos presos em Recife, ficou amigo deles e deixou o Exército decepcionado com o que estava acontecendo. Agora, acaba de publicar um livro de lembranças dessa época, Memórias de um Capitão, para o qual escrevi uma orelha. Ele trouxe o livro para mim e para quem mais encontrasse por aqui. Acabou fazendo amizade com Antônio Fagundes, passando a maior parte do tempo na pousada a lhe contar histórias com a graça e a habilidade que sempre encantou seus amigos. Carlito me pediu que tirasse uma foto dele concedendo autógrafo a Fagundes. Essa foto vai fazer sucesso na imprensa alagoana!"

Carlos Diegues. O Diário de Deus é Brasileiro. RJ, Ed. Objetiva, 2003

Antônio Fagundes e Carlito Lima, em momentos de descontração durante as filmagens do filme Deus é Brasileiro, em Piaçabuçu-AL

 

O monumento vivo de Maceió e suas histórias
[03/11/2006]

Escrever sobre Carlito Lima é um exercício metalingüístico. É contar a história de quem faz a história viva do povo maceioense. Afinal, como o próprio “velho capita” ou Duque de Jaraguá coloca: “Um local não é feito de prédios, ruas e espaços, mas acima de tudo da alma de um povo”.

Pois bem, o escritor Carlito Lima é uma antena a captar os detalhes dos personagens que compuseram Maceió ao longo do tempo. Atento, intelectual, boêmio, bem-humorado e astuto, o narrador do povo é o responsável pelos maravilhosos trechos de nosso tempo que os historiadores oficiais esqueceram de contar.

 É isto que é possível ver em Viventes de Maceió, a nova obra de Carlito Lima, que este mês lança dois livros. Além do já citado, o Duque de Jaraguá brinda os alagoanos com a biografia do ex-governador Ronaldo Lessa, com uma narrativa de quem estava dentro do nascimento do homem político, desde a turma de Engenharia Civil, em que ele e Lessa estudaram juntos. Com as duas recentes obras, Carlito Lima chega ao sétimo livro sem perder o fôlego de um escritor iniciante e a paixão pelas letras, mas demonstrando maturidade com a escrita. Um intelectual sem as frescuras do intelectualismo. A simples linguagem viva e ambulante do povo, que atravessa o tempo. Carlito Lima – em suas obras – se firma como o Clássico do nosso presente.

Ao descrever o porquê de recompor histórias sobre os personagens de Maceió, o escritor diz que decidiu “radiografar a cidade por meio de suas almas”, o que considera mais importante e que segue os passos de Mestra Graça, nesta árdua tarefa. “Comecei a escrever o livro a partir da idéia tida por Graciliano Ramos ao fazer Viventes de Alagoas. Decidir então pelo título de Viventes de Maceió, como uma referência. Busquei pessoas que construíram esta cidade, em todos os sentidos, mas que não são lembradas. Por exemplo, fiquei assustado ao dar uma palestra no bairro do Benedito Bentes e perceber que as pessoas não conheciam quem foi o homem que dá nome ao local onde eles moram”.

A surpresa de Carlito Lima deu origem à “necessidade de juntar coisas de Maceió e falar de seus personagens históricos. Ir além dos seus prédios, sentir a alma de seu povo”. Em Viventes de Maceió, Lima resgata o sentimento de nascer na Terra dos Marechais e conta histórias, com paisagens e símbolos que o tempo deixou para trás. Uma destas é o conto sobre a amante do saudoso ex-governador Costa Rego. “Ele tinha uma amante francesa. O povo ficou revoltado porque ele a colocou em uma residência aqui em Maceió, gerou muitos comentários. Em 1939, o capitão Mário Lima comprou esta casa e foi morar lá com a família. Um ano depois, nasce um menino bonitinho e rosado naquele lar. Nasce o Carlito Lima. Eu. Nasci na casa da amante do governador (risos)”, revela.

Ainda que Viventes de Maceió retome um tom saudosista, Carlito Lima não se assume nostálgico. “Não tem um quê de saudosista ou de personagem nostálgico. Não mesmo. Eu falo do passado, resgato estas histórias, mas gosto mesmo é de viver o presente. Reconheço as belezas da vida de hoje, como por exemplo, as coisas novas e lindas da nossa Maceió de agora. Entre elas, destaco a praia da Pajuçara. Em nenhum lugar do mundo existe algo tão lindo. As coisas modernas também são muito boas”.

No entanto, ao falar da Maceió de hoje, o escritor lamenta a destruição de ícones de nossa cultura e diz que as pessoas responsáveis deveriam estar na cadeia. “Falo sobre isto no livro. Há uma série de tragédias alagoanas com um patrimônio que pertencia aos maceioenses, como os Sete Coqueiros, que deixaram cair, como a Casa Rosa, que não mais existe e que futuras gerações jamais poderão ver. Como deixaram estes lugares sumir. Faziam parte da alma do povo de Maceió. Cito o Gogó da Ema, a Cadeia Pública, enfim. Os responsáveis por tudo isto deveriam ir para a cadeia. Mas há coisas lindas também em nossa atualidade”, sentencia.

Para Carlito Lima a união entre o povo e as belezas naturais fazem de Maceió , “a cidade mais linda do mundo”. É agarrado a este sentimento, que Viventes de Maceió tenta definir o que é ser maceioense, já que para Carlito Lima é um sentimento que vai além das palavras. “Rapaz, recebi certa vez um e-mail que dizia que ser maceioense é morar a duas quadras da praia, seja em qualquer lugar da cidade. Que definia o maceioense como aquele que não se preocupa com os congestionamentos da Tietê, por exemplo. Achei interessante e coloquei que vai muito além. É olhar o pôr-do-sol e saber que se estar no paraíso. É poder escutar Júnior Almeida, Macléim e outros. É lindo”, coloca.

Ao descrever Maceió, Carlito Lima lembra que tomou banho no Riacho Salgadinho ao lado de Cacá Diegues, quando garoto. “Pescávamos juntos. Fomos uma geração privilegiada, pela boemia, o intelectualismo e a minha geração era muito ligada ao sexo. Fizemos quadrilhas com prostitutas. Agora, reconheço que a juventude de hoje em dia também tem a sua vantagem, entre elas, a evolução da genética e as questões da saúde. Na minha época chegar aos 50 era estar velho, hoje eu me sinto jovem ainda e não há mais esta visão”, coloca.

Mesmo falando de uma “geração privilegiada”, o escritor crer que ainda há espaço para a boemia e a boa intelectualidade em Maceió. “Há espaço sim. Tem o Bar da Zefinha, no Jaraguá, muita gente se encontra lá e vejo que há este ambiente ainda aberto para a ideologia, mesmo sendo diferente da nossa época. Até a prostituição hoje é diferente. Na época era reduto de pensadores. Hoje em dia é com ponto, endereço no jornal, etc. Nos antigos redutos a gente via senadores, deputados, influentes. Era chique. Terminávamos a boemia ao lado das garotas de programa. Havia em nossos encontros uma questão política. Vivemos uma revolução de costumes”.

Ao ser indagado sobre tal revolução, Carlito Lima diz que “aquela geração passou por uma reformulação de valores”. “Na minha época ninguém transava com a namorada, por exemplo, e as discussões políticas eram fortes e ligadas a ideologias. Na faculdade, ninguém falava comigo porque eu era do Exército, sofri discriminação e só consegui entrar na turma e ter amizade, inclusive com o Ronaldo Lessa, depois’.

“Tem até uma história interesse, sobre uma boate em Riacho Doce, a Zinga Bar, que era maravilhosa e ficava a beira-mar. Foi uma revolução dos costumes femininos em Maceió. Era um local aonde as moças de família iam, porque não era prostíbulo. Começou a mudar muita coisa. Tenho saudades deste local. Não sei porque acabou. Era muito bom”, destaca o contador de histórias.


O Carlito biógrafo

No segundo livro lançado, A Caminhada de um Guerreiro, Carlito Lima retrata a trajetória de Ronaldo Lessa. “Meu objetivo inicial era fazer um livro sobre os últimos governadores do Estado de Alagoas, mas quando comecei minhas pesquisas percebi um material extenso e resolvi lançar um por vez. O projeto inicial se chamaria Briga de Foice. Comecei pelo Lessa porque convivi com ele na faculdade e acompanhei de perto o processo. Eu aponto qualidades e alguns erros, mas vejo da minha ótica, quem vê diferente que escreva outro livro”, destaca.

“Os historiadores dizem que um momento histórico ou um político só pode ser analisado 40 anos depois, quando somem os resquícios de emoção e fica só a razão. Pois bem, eu me antecipo ao que será dito daqui alguns anos. O Ronaldo Lessa marcou uma era em Alagoas, com novas obras. O Lessa desenvolveu um sentimento de orgulho por ser alagoano. Coisa que o povo havia esquecido”, diz.

Conforme Carlito Lima, o livro descreve os passos de Lessa desde a liderança estudantil até o período em que deixou o Governo de Alagoas para se candidatar ao Senado Federal. “Avalio a época em que Lessa esteve no poder como um período de avanços. Destaco o que foi feito pelo turismo, que isso já bastou para fazer valer o governo dele. O Lessa foi mais estadista que político. O político pensa apenas nas próximas eleições, o estadista nas gerações vindouras. O Lessa foi político também. Teve que acender velas ao diabo, como por exemplo, as negociações com a Assembléia Legislativa. Mais sei que ele fez isto constrangido, pois caso contrário não governaria”, avalia.

Segundo o biógrafo, o ex-governador nasceu em uma madrugada chuvosa e depois veio a bonança. “O nascimento de Lessa representa uma metáfora política da forma como ele assumiu o Estado de Alagoas e como saiu. Claro que ainda há muito que fazer”, sentencia.

Quanto ao final da Era Lessa, o escritor analisa: “Eu enxergo com tristeza a forma como as esquerdas estão deixando pó poder. As forças de esquerda sempre foram muito desunidas. Elas só se unem mesmo dentro da cadeia (risos). Deixaram escapar o Governo de Alagoas. Não quero culpar ninguém, mas ao desentendimento entre si. Para mim é algo triste não ter nascido dentro do próprio governo alguém para substituir o Lessa. No livro eu digo isto”, finaliza Carlito Lima.

A HISTÓRIA DO BARÃO DE JARAGUÁ

No final do século XIX os ricos comerciantes construíram casarões avarandados em frente aos trapiches da praia do aterro em Jaraguá. Fachadas ornadas com primeiro e segundo andares, estilo arquitetônico europeu. Serviam para estabelecimentos comerciais e moradias.

Por ser local mais adequado, um ancoradouro natural, Jaraguá foi contemplado com uma ponte de embarque de navios e barcaças, alem dos trapiches existentes.

A Ponte de Jaraguá efervesceu o movimento comercial da região. Inclusive foi um dos motivos da transferência da capital do Estado, da então cidade de Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul, hoje Marechal Deodoro, para Maceió.

Cais, porto, ancoradouro, ponte de embarque atraem biroscas, bares e cabarés. A região comercial de Jaraguá foi se transformando em ponto boêmio. Os moradores dos casarões, famílias das mais distintas e conservadoras, mudaram-se para outros bairros, abandonando aquelas moradias para o comercio.

Foi nesse momento que os belos casarões viraram casas noturnas, boates, puteiros. Esses lupanares abrigavam raparigas refinadas. Muitas importadas da Europa, França, Bahia e do sertão nordestino.

As prostitutas ficaram mais de 60 anos naqueles estabelecimentos, trabalhando com o suor de seu corpo. Fazendo a vida na mais velha das profissões. Ao mesmo tempo conservaram esse patrimônio arquitetônico e histórico da cidade de Maceió, o bairro de Jaraguá.

Por essa razão alguns boêmios da cidade resolveram homenagear as prostitutas que ali moraram, preservaram e legaram para outras gerações os casarões de Jaraguá.  Afixaram o MEMORIAL À PUTA DESCONHECIDA em uma rua. Um gesto merecedor e reparador.

Sou fruto de Jaraguá. Nasci e me criei nesse bairro onde originou Maceió. Aprendi a andar nas areias da praia e a nadar no mar azul-esverdeado da Avenida da Paz.

Em minha juventude fui assíduo freqüentador daqueles lupanares, mesmo que, só para tomar uma cerveja ou ouvir música dos conjuntos afinados que tocavam para os clientes movimentarem-se com as meninas. Foi com elas que aprendi a dançar bolero, chá-cha-chá, mambo ou o difícil tango argentino.

 Os nomes dos cabarés eram expressivos: Alhambra, Tabaris, Night and Day. Nas ruas circulares ficavam os puteiros da ZBM, ou seja, Zona do Baixo Meretrício, freqüentado pela população mais pobre. Duque de Caxias e o Verde eram os “randevus”  mais conhecidos da ZBM.

Quando os bairros de Pajuçara, Ponta Verde se tornaram mais habitados pela burguesia, houve uma forte pressão das madames para tirar a zona de Jaraguá. Sentiam-se incomodadas. Ao se deslocarem até ao centro e outros bairros, inevitavelmente passavam pelo corredor de prostíbulos.

Em 1969 o então Secretário de Segurança Pública Coronel Adauto mandou transferir todos os cabarés de Jaraguá para região do Canaã no Tabuleiro dos Martins.

A partir desse momento alguns casarões foram derrubados pelas imobiliárias e construtoras. Construíram prédios de gostos duvidosos como o BRADESCO e a COMISPLAN. Até que intelectuais e artistas liderados por Ênio Lins, Pierre Chalita e Solange Lages conseguiram tombar o bairro de Jaraguá.

Sem esse movimento da comunidade artística, nada mais restaria dos casarões que as putas conservaram por mais de 60 anos.

Em 1990, a AMAPAZ, Associação dos Amigos da Avenida da Paz, iniciou um movimento para despoluir o Riacho Salgadinho e a própria praia da Avenida.

Durante uma visita do então Presidente Fernando Collor foram colocadas faixas e cartazes em seu trajeto. No roteiro do presidente sempre havia faixas pedindo a despoluição do Salgadinho. O presidente prometeu atender.

Com um mês, a Ministra Margarida Procópio apresentou o projeto de despoluição do Salgadinho. Junto, incluído, veio também o projeto de Revitalização do bairro antigo de Jaraguá.

Mas foi Ronaldo Lessa, como prefeito, que conseguiu com o BID financiamento e tocou a obra. Hoje Jaraguá restaurado é um ponto de encontro de turista e boêmios de Maceió.

Por conta dos velhos tempos e por ter participado, de certa forma, na recuperação do velho e bonito bairro boêmio de Jaraguá, a Liga de Blocos Carnavalescos de Maceió me conferiu o título de DUQUE DE JARAGUÁ. O qual uso orgulhoso nos meus escritos, na minha identidade. O diploma de Duque fica bem visível, com muita honra, na parede de minha sala, como uma homenagem ao bairro onde nasci e me criei. Vivi e vivo Jaraguá.

 

 

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